Problemas de Ereção: A “Ponta do Iceberg”


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Disfunção Erétil (DE) consiste na incapacidade persistente em obter e manter uma ereção peniana suficiente, que permita uma atividade sexual satisfatória. Essa doença, que outrora era popularmente conhecida como “impotência sexual”, afeta a saúde física e mental do homem, impactando de forma significativa a sua qualidade de vida.

Estudos epidemiológicos estimam que cerca de 50% da população masculina mundial, acima de 50 anos, apresentam alguma queixa relacionada às ereções e aproximadamente 5 a 20% dos homens possuem DE moderada a severa. Um estudo realizado pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), que avaliou 2.862 homens de todas as regiões do Brasil, demonstrou que cerca de 45% dos brasileiros sofrem de Disfunção Erétil.

A DE pode ser classificada em três grandes grupos: psicogênica, orgânica e mista. A Disfunção Erétil de causa psicogênica está relacionada ao estresse emocional, problemas pessoais, conflitos conjugais, perda do emprego, depressão, insatisfação com a vida e atitudes pessimistas. A Disfunção Erétil de causa orgânica, por sua vez, está associada com os distúrbios de origem vascular, déficits hormonais, disfunções neurológicas, efeitos colaterais de determinadas medicações, dentre outros.

No passado acreditava-se que as causas psicogênicas eram as grandes responsáveis pelos problemas de ereção. Porém, com os avanços da medicina, observamos que a Disfunção Erétil de causa orgânica é a mais prevalente em nosso meio, e está intimamente relacionada com outros graves problemas de saúde, destacando-se a hipertensão arterial, o diabetes, as dislipidemias e o tabagismo.

Uma pesquisa feita pela Universidade Nacional da Austrália, com a casuística de quase 100.000 homens, constatou que a Disfunção Erétil parece elevar o risco de um indivíduo sofrer algum distúrbio cardiovascular durante a vida, independentemente do mesmo possuir algum histórico de problemas cardíacos. Ademais, quanto mais grave for o problema de ereção, maiores as chances de hospitalização, ou óbito, por problemas do coração.

Alguns estudiosos em Sexualidade Médica sustentam que a Disfunção Erétil deve ser considerada, na verdade, uma manifestação precoce de doenças cardiovasculares; podendo preceder o início de uma Angina Estável (forte dor torácica, relacionada com esforços ou estresse) em 2 a 3 anos, e anteceder um Infarto Agudo do Miocárdio, conhecido por muitos como Ataque Cardíaco, em 3 a 5 anos.

O principal elemento que correlaciona a Disfunção Erétil com problemas do coração é a aterosclerose; que consiste na formação de placas de gordura na parede dos vasos do organismo, levando, progressivamente, à diminuição de seus calibres e do fluxo sanguíneo local.

Francesco Montorsi, Pesquisador da Universidade Vita Salute San Raffaele, em Milão e Editor-Chefe do periódico científico European Urology, publicou um artigo em 2003 intitulado: “Is erectile dysfunction the “tip of the iceberg” of a systemic vascular disorder?” (Será a Disfunção Erétil a “ponta do iceberg” de uma desordem vascular sistêmica?), propondo a ideia de que as artérias no pênis sofreriam obstrução por placa aterosclerótica de forma mais precoce do que as artérias coronárias ou carótidas, uma vez que o diâmetro das artérias penianas é menor comparado às outras.

Sendo assim, seria lógico pensar que os problemas de ereção se desenvolverão antes de um evento cardiovascular, e que este achado pode ser o primeiro sinal visível de um problema muito mais grave; daí a comparação com um iceberg – um enorme bloco de gelo que expõe apenas 10% de seu volume, enquanto que os outros 90% encontram-se submersos no mar, causando um enorme perigo de naufrágio às embarcações.

Estudos subsequentes elaborados pelo Professor Montorsi mostraram que aproximadamente 40% dos pacientes com Disfunção Erétil desenvolveram doença cardiovascular, quando acompanhados durante quatro anos. Desta forma, todos os médicos e outros profissionais da Saúde, de uma maneira geral, devem valorizar sempre esta queixa no consultório, compreendendo que este pode ser o primeiro sinal de um problema mais grave que estes pacientes possam apresentar no futuro, possibilitando investigações mais detalhadas e intervenções mais precoces.

Um obstáculo que encontramos na rotina médica diária, que dificulta um diagnóstico precoce dessa doença, reside no hábito costumeiro dos pacientes em não relatar de forma espontânea suas queixas sobre a “potência”. Da mesma forma não é hábito da maioria dos médicos no Brasil perguntar, de forma rotineira, sobre a vida sexual de seus clientes. No entanto, com base nas evidências expostas anteriormente, que elevam a importância clínica da “impotência” para uma patologia que vem consolidando-se como um preditor de doenças cardiovasculares, os profissionais da Saúde devem ser estimulados cada vez mais a fazer esse tipo de questionamento durante as consultas. Essa é uma ótima oportunidade de explorar e tratar precocemente possíveis doenças do coração.

A Disfunção Erétil pode ser conduzida por todos os médicos que atuam no nível da atenção primária, ou seja, prevenindo doenças; assim como os especialistas em Urologia, que têm oportunidade de aprofundar a investigação com uma história clínica e exame-físico detalhados, juntamente com testes diagnósticos específicos para esta condição. Esta consulta pode detectar um problema cardíaco incipiente em tempo hábil para o tratamento.

Posto isto, se você sofre de problemas de ereção, independente da sua idade, procure um Urologista ou outro Profissional da Área da Saúde, para uma avaliação global da Sáude do Homem.

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